*Cobertura realizada em conjunto com Bianca Lopes e Ruy Machado.
Além de ser acusada por exercício ilegal da profissão e maus-tratos, podendo até ser indiciada por tortura, a dona da creche, supostamente clandestina, situada no bairro de São José do Imbassaí, em Maricá, pode ter participação no tráfico de crianças. A informação é de uma mãe que, em 2007, tinha duas crianças matriculadas na unidade e sem condições financeiras para arcar com as mensalidades, teria sido convencida a aceitar uma proposta feita pela proprietária da creche e dado suas duas filhas, uma de dois e outra de quatro anos, a dois casais apresentados pela mulher.
Segundo a denunciante, Aline Canavarro Francisco, 26 anos, a história começou em 2007, quando suas duas filhas ficavam na creche e ela mesma chegou a morar um tempo no imóvel. Na época, sem ter condição para pagar as mensalidades e passando por necessidades financeiras, a proprietária sugeriu que ela doasse as meninas para outros casais que tivessem condição de criá-las. Aline negou a proposta e imediatamente deixou a casa, indo buscar abrigo na casa de sua mãe, em Itaboraí. Durante o percurso recebeu uma ligação, esta seria do suposto marido da dona da creche, e ele pedia que Aline retornasse, pois tinha algo muito importante para tratar com ela.
“Quando cheguei de volta à casa estavam dois casais desconhecidos. Eles falaram várias coisas e me convenceram a deixar as crianças irem com estas pessoas. Acreditei que seria melhor para as meninas, pois eu não tinha condições de cuidar delas. Eles me garantiram que eu não deixaria de vê-las, principalmente nas datas comemorativas, mas desde então (2007) não vejo minhas filhas”, disse Aline Canavarro.
Após ter deixado as crianças com os dois casais, a mãe verdadeira vem travando uma batalha para tentar reaver as meninas. De acordo com ela, um registro de ocorrência chegou a ser feito na 82ª DP (Maricá), além de ter procurado o Conselho Tutelar da cidade. Aline Canavarro também falou que na terça-feira procurou o Fórum da cidade e lá teria tido a informação que uma das filhas poderia estar em Belford Roxo.
“Me arrependo amargamente do que fiz, se entreguei minhas filhas é porque achei que elas poderiam ter uma vida melhor. Minha mãe e meu marido, na época, foram contra minha decisão”, declarou.
Polícia Civil investiga tortura a bebês
A dona da creche em São José de Imbassaí é acusada de agredir as mais de 14 crianças que ela cuidava. A creche seria clandestina e, segundo os pais, a única opção para deixar as crianças na área que não possui creche da prefeitura. As imagens foram feitas por uma filha adotiva da proprietária do estabelecimento. Porém, no segundo depoimento da menina, que possui 14 anos, ela mudou a versão dos fatos e disse que ela teria amarrado as crianças e feito as fotos em troca de atenção. Uma gravação mostraria que a menor foi convencida pela mãe a mudar o testemunho.
Segundo as mães, no último dia 5 de julho elas receberam as imagens das crianças amarradas e amordaçadas e no dia seguinte foram prestar queixa na 82ª DP (Maricá). A proprietária da creche não tinha funcionários e cuidava das crianças com ajuda da filha adotiva de 14 anos. A creche funcionaria há 15 anos e a mulher cobraria entre R$ 110 e R$ 180 por criança.
Conforme o delegado titular da 82ª DP (Maricá), José William de Medeiros, a dona da creche não está foragida e vai responder por exercício ilegal da profissão e maus-tratos. A tipificação de tortura será apurada no decorrer da investigação.
A menor de 14 anos será ouvida novamente para confrontar as diferentes versões dos depoimentos. As crianças passaram por exame de corpo de delito e o prazo para o resultado dos laudos é de 15 dias. O CD com a gravação em que uma mulher, supostamente a dona da creche, conversa com uma menina, que seria a menina responsável pelas fotos que mostram os maus-tratos às crianças, e tenta convencê-la a dar um depoimento favorável a seu favor, também já está em poder da polícia.
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Suspeita teria tentado convencer filha adotiva a mudar versão:
Menina Você quer que eu vá na delegacia falar o quê?
Mulher Você pode ficar calada, você só precisa falar assim: ‘Eu fiz aquilo porque eu queria acabar com a creche porque eu nunca gostei daquela criançada aqui. Eu achei que as mães iam mandar as crianças embora’, só isso.
Menina Mas não fui eu quem amarrou as crianças.
Mulher Mas você só vai falar isso.
Menina Mas não fui eu quem fiz isso.
Mulher Mas foi você que entregou as fotos.
Menina Eu sei que eu entreguei as fotos, mas eu não amarrei elas.
Mulher Ninguém vai perguntar se você amarrou elas, X, você só tem que dizer isso. (...)
Mulher Você não quer fazer nada para me tirar dessa, então tudo bem. Deixa como tá, eu vou ficar nessa vida minha.
Menina Para eu te ajudar eu tenho que saber onde você está.
Mulher Você quer saber onde eu estou para mandar virem me buscar. Você pode estar até gravando isso aí.
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Gravação 2
Tio Você não está disposta a ajudar a sua mãe? Ela não tinha motivos para isso?
Menina Tinha sim
Tio Que motivos você acha que ela tinha?
Menina Eu não posso dizer. Mas ela que faz e eu que tenho que falar.
Tio Mas você podia tentar ajudar ela de alguma forma. Você não acha que pode?
Menina: Não.
Tio Mas você não ama a sua mãe?
Menina Manda ela assumir que foi ela.
Tio Se ela assumir que foi ela, ela vai presa na hora. Você quer ver ela presa?
Menina Ah não sei. Já cansei de ser maltratada.
Tio Mas você podia arrumar um jeito de ajudar ela.
Menina Eu não quero falar isso.
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Gravação 3
Mulher Eu vou te pedir uma coisa, se você puder fazer você faz. Se não der, não faz. Você diz que você só tirou as fotos, que você não amarrou as crianças, mas que você não sabe quem amarrou. (..) ‘Eu só tirei as fotos e entreguei para a mãe. Não fui eu quem amarrou. Mas você não precisa dizer: ‘Foi a minha mãe’.
Menina Mas se ele perguntar, o que eu falo?
Mulher Você diz que não sabe, que entrou no quarto e viu eles com a boquinha amarrada. ‘Eu vi, tirei a foto e mostrei para a mãe. Mas eu não vi quem foi’. Assim você não vai estar me salvando, nem me prejudicando.
Menina Tá bom
Mulher Vai falar isso?
Menina Vou
Mulher Se você falar que viu a sua mãe eu vou direto para a cadeia.
Menina Tá bom
Matéria publicada em 17 de julho de 2012 no Jornal O Fluminense, disponível no site.
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