No livro que trouxe notoriedade a carreira de Euclides da Cunha, o autor fez em Os Sertões um relato detalhado de uma das maiores batalhas no período inicial da República brasileira, a Guerra de Canudos, apoiados em questões topográficas, antropológicas e até de estratégia militar, tudo o que o autor julgou pertinente para a compreensão das motivações e do desenrolar da guerra. Esse trabalho de pesquisa foi pioneiro na sua época. As descrições são tão ricas, pois o autor foi enviado pelo O Estado de São Paulo para fazer a cobertura já na reta final do conflito. A Guerra de Canudos durou de outubro de 1896 a julho de 1897, e o livro foi publicado em 1902.
Os Sertões é dividido em três partes: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”. No livro todo, mas principalmente nas duas primeiras divisões, o autor aprofunda os estudos apoiados nas correntes cientificistas vigentes na virada do século XIX para o XX.
Em “A Terra” o autor faz uma descrição detalhada dos aspectos naturais da região, posições geográficas, formações geológicas, constituição da vegetação, curso de rios, relevo e variações climáticas. Narra os contrastes da paisagem no deslocamento do litoral para o interior e o isolamento da região, os poucos contatos externos que tiveram, com raras e rápidas pesquisas.
Tenta explicar os motivos pelos quais a região é castigada pelas secas e procura apontar soluções. Mostra, sempre com base nas pesquisas e declarações de outros e remetendo-os, que as secas possuem certa periodicidade, um intervalo regular de anos. Põe o homem como um dos agentes dessa desertificação devido às queimadas que emprega para limpar o solo, pratica herdada pelos índios.
“O Homem” apresenta estudos antropológicos e a origem pré-histórica dos índios. A formação dos mestiços pelos três elementos étnicos do país: índios, negros e brancos. Mas foca no tipo de mestiço mais presente na região, o mameluco ou curiboca resultado do cruzamento de brancos e índios, o autor explica que o negro ficava concentrado no litoral para o trabalho, e mesmo quando fugia seus esconderijos não se dirigiam muito para o interior.
Euclides da Cunha aponta diferenças entre o clima do sul do país e do norte, e demonstra como essas diferenças caracterizam o homem que mora nessas regiões, deixando-os quase antagônicos. Foca nas transformações fisiológicas sofridas pelos sertanejos devido ao rígido regime das secas: a redução do seu pulmão, consequentemente na redução da eliminação do carbono e (segundo o autor) diminuição das capacidades psíquicas.
Destaca o vaqueiro, curibocas que lidavam com gado, e suas características mais marcantes, o folclore rico, a grande importância da honra e da religião, os hábitos e tradições arcaicos devido ao isolamento da região, além do seu modo de vestir único. Descreve o seu jeito desengonçado e lento, mas já repara que em momentos extremos ele surpreende, mostra vigor que em nada lembra o seu estado anterior.
No capitulo II Gênese dos jagunços, no trecho “Um parêntesis irritante...”, o autor enumera aspectos negativos da mestiçagem de acordo com as correntes cientificas, descreve o mestiço como uma raça intermediaria, sem o intelecto do branco nem a disposição física do índio, e que mesmo assim tinha tendência a querer se aproximar cada vez mais da sua descendência branca.
Destaca o grande apego a tradição religiosa dessa população, muitas vezes a única forma de combate a uma doença é a reza. O autor faz uma critica aos pastores que amedrontam a população com descrições fortes do inferno, dando o exemplo de uma cidade que depois de uma pregação desse tipo a população saiu desembestada pelo mundo, pagando penitencias e saqueando para sobreviver. Assim demonstra o poder que um líder religioso consegue ter com aquele povo.
Ainda em “O homem” há um resumo da vida de Antonio Conselheiro, desde as rixas que sua família possuía antes dele nascer como a decepção com sua esposa e seu tempo de auto-exílio no sertão. O inicio das suas pregações e profecias e também dos seus problemas com a República.
A concentração dos seguidores de Conselheiro, que repeliam a policia que divergia com o seu líder e a conseqüente ida para o interior e formação do arraial de Canudos, pois Conselheiro conhecia bem aquelas terras graças aos seus anos de peregrinações. O êxodo que a população do interior da Bahia e de vários estados fizeram para chegar a Canudos. As práticas lá empregadas: a rígida rotina de rezas, a entrega dos pertences à Conselheiro na chegada e o objetivo maior da construção de uma nova igreja.
Na última e maior parte do livro, “A Luta” descreve os desenrolarem das várias batalhas da guerra, as dificuldades da República para combater Canudos e à proporção que o conflito ganhou em escala nacional, deixaram de ser um grupo liderado por um homem que discordava da taxação de impostos baseados na religião no interior da Bahia para se tornarem uma grande ameaça ao Governo.
As movimentações militares e suas quatro expedições regulares, o despreparo dos soldados em questões de estratégias militares (por exemplo, o da segunda expedição, que para aliviar os soldados iam deixando as munições nas paradas ao atravessar o sertão), os recursos que sempre acabavam e deixavam a tropa com fome e sede. Assim, muitas batalhas foram vencidas pelos soldados, pois bem ou mal eles possuíam armas melhores, porém saiam tão desgastados que eram eles que recuavam e precisavam de reforços. E a cada recuo das tropas mais pessoas deixavam suas casas em direção ao Arraial.
As paradas estratégicas dos militares em Queimadas e Monte Santo na travessia do sertão para chegar a Canudos e a rotina de tocaias por parte dos jagunços que tinham a proteção da caatinga, além dos tiros dados a distância das torres das duas Igrejas, a antiga e a nova. Outros fatores foram importantes no curso dessa guerra fazendo-a durar tanto. Os soldados famintos, quando conseguiam entrar nas casas em um ataque a Canudos, dominavam os moradores, mas quando revistavam a casa à procura de água e comida eram mortos por outros jagunços. O exército recuava e abandonava as armas, que eram recolhidas pelos sertanejos, assim os jagunços conseguiram até um canhão.
Entre uma descrição de batalha e outra, o autor faz criticas sobre a lentidão do governo e sua falta de organização. Mostra que os fracassos das expedições revoltaram a população, relatando manifestações no Rio de Janeiro, capital federal da época, exigindo a imediata solução do conflito. Muitos se voluntariaram para combater os sertanejos.
Euclides da Cunha descreve o desenrolar da guerra mostrando repulsa às práticas do exército, como o de decapitar os jagunços presos que não estivessem feridos, e dos soldados feridos que retornavam antes da guerra terminar que invadiam e queimavam as casas dos sertanejos que nada tinham a ver com Canudos pelo caminho de volta. Fez um detalhado perfil dos homens que participaram do cerco e do rendimento de Canudos, tanto do lado dos militares quanto do lado dos jagunços.
O autor procura ser imparcial, ao mesmo tempo em que lamenta que a primeira aproximação mais duradoura com aquela região tão remota tenha sido dessa maneira, ao descrever as batalhas a partir da quarta expedição ele usa pronomes pessoais mostrando apego e pertencimento: nossa gente e dos nossos soldados.
Depois da Guerra vencida, os soldados demoliram as 5.200 casas do Arraial de Canudos, desenterraram o corpo de Conselheiro (que já havia morrido bem antes dos momentos finais do conflito) e trouxeram sua cabeça para a litoral.
Euclides da Cunha procura ser fiel aos fatos, mas sem deixar de criticar. Inclui no “simples” relato de uma guerra, aspectos sociológicos, cientificistas e geográficos, tudo que despertava interesse da sociedade intelectualizada naquela época não só no país, mas no mundo também. Foi um dos primeiros livros, talvez o primeiro que tentou “mostrar o Brasil que o Brasil não conhecia”, e fez isso tão bem que hoje em dia, mesmo com a maior quantidade de informação que temos Os Sertões ainda consegue ser explicativo e fazer pensar, os objetivos de mais de 100 anos atrás.
Trabalho entregue em 2009.2 na disciplina Linguagem Jornalistica.
(Nunca se sabe quando se pode precisar de uma resenha escolar dessas)
Obrigada Juliana!
ResponderExcluirMuito bom!
Muito bom.
ResponderExcluirFicou muito bom mesmo! Obrigado!
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