segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Soberania na arte de Inovar: Deborah Colker mais uma vez surpreende em Tatyana

Matéria publicada em 24 de maio de 2011 no Segundo Caderno do jornal O Fluminense.

Deborah Colker é um dos nomes mais fortes da dança contemporânea no País. Conhecida por trabalhos impactantes criados a partir de uma ideia, a diretora inova em seu novo trabalho. Tatyana é adaptada do romance versado Eugene Onegin publicado em 1832 por Aleksandr Púchkin, considerado um dos pais da literatura russa e conta a história das desilusões amorosas de quatro jovens e as consequências dramáticas de suas ações. O espetáculo entra em curta temporada de amanhã a domingo no Theatro Municipal do Rio. 

Mas chegar a essa história não foi fácil, como conta a diretora Deborah Colker.

“Desde 2005 no Nó eu senti a necessidade de mudar a dramaturgia dos meus espetáculos, em 20 08 eu queria muito encontrar uma história, mas ainda não era o momento, então eu fiz o Cruel, depois eu fiz o Ovo para o Cirque du Soleil, o que exacerbou ainda mais essa minha vontade, porque eu escrevi e dirigi uma historia lá.  uando eu li essa (Eugene Onegin) eu vi que ela tinha todos os assuntos que me interessavam, o livro do Púchkin fala sobre amor, transformação, amadurecimento e o fim das coisas”. 



Os espetáculos da Companhia de Dança Deborah Colker possuem um estilo próprio. Belas coreografias em cenários inquietantes alimentadas por uma colagem de músicas que atiçam a dança no País desde a estreia da companhia em 1994. Foi um sucesso atrás do outro, coreografias carregadas de vigor e emoção que permanecem na lembrança do público mesmo passados anos das suas presentações, o figurino é atemporal e a trilha sonora marcada por compositores clássicos russos de diferentes épocas, do romantismo de Tchaikovsky ao modernismo de Stravinsky todos remixados por Berna Ceppas, que junto com o cenógrafo Gringo Cardia e o iluminador Jorginho de Carvalho trabalha com Deborah desde o primeiro espetáculo, Mix, de 1996.

Eugene Onegin levou sete anos para ser escrito e é considerado a obra prima de Púchkin. Onegin, um jovem rico que depois de uma vida de excessos na cidade vai para o interior tomar posse de uma herança, lá ele conhece o poeta Lenski, sua noiva Olga e a irmã dela, Tatyana. Ambas se apaixonam por Onegin, que rejeita Tatyana e se insinua por Olga, o que resulta em um duelo entre ele e seu então amigo Lenski. Onegin mata Lenski e parte, anos mais tarde ele reencontra Tatyana, casada e amadurecida, mas mesmo ainda o amando, Tatyana se mantém fiel ao marido e o rejeita. Na obra de Deborah a protagonista é Tatyana.

O foco está na emoção dos protagonistas, cada um interpretado por quatro bailarinos, exceto Lenski com três.

“Eu quis sintetizar a história nos quatro personagens pri ncipais do livro, Cenário inquietante é uma das armas da apresentação os que real mente sofrem uma transformação. Mas eu tenho uma companhia com17 bailarinos. Esses personagens tem uma grande pluralidade, o Onegin por exemplo, um cara rico, bonito, fascinante, culto e ao mesmo tempo entediando. As Tatyanas também, tem uma mais selvagem, outra mais i nt rospect iva. Cada um dos bailarinos traz uma facetada personalidade desse personagem”, explica Deborah.




Como narrador da história, entra na coreografia o autor Púchkin, interpretado por dois bailarinos, um deles a própria Deborah, “o Dielson Pessoa faz um Púchkin deslumbrante, na angústia da criação, de intervir na vida desses personagens. Existe uma dualidade masculina e feminina, não dá para negar, mas existe um Púchkin que escreveu o livro e uma Deborah que captou esse livro, são camadas diferentes de criação”, resume a diretora.

Não pense que por se tratar de uma adaptação de um livro Tatyana perdeu as características grandiosas das obras da companhia. No primeiro ato do espetáculo os bailarinos apresentam toda a carga dramática de seus personagens ao redor e em cima dos galhos de uma grande árvore metálica no cenário. Já no segundo e último ato, todos os bailarinos interpretam Onegin e as bailarinas Tatyana, e todas usam sapatilhas de ponta, um desafio para elas.



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“Eu adoro ver uma bailarina nas pontas, ela fica mais elega nte, mais alongada. É o salto alto da bailarina. Quando a mulher vai para uma situação importante ela não vai de tênis, ela vai de salto alto. No segundo ato, é onde falo da transformação da Tatyana, eu quis unificar todas as bailarinas, elas deixam de ser Olgas e passam a ser Tat yanas e elas são uma Tatyana amadurecida, transformada, uma dama da sociedade”, conta Deborah.

Sobre a dramaticidade do espetáculo, a diretora reflete: “O Púchkin não tem um olhar pessimista da vida, ele tem um olhar muito real da vida, eu quis montar uma história, um balé contemporâneo, que falasse de personagens que se transformam, a vida real não é um conto de fadas, o amor é carregado de problemas. No primeiro ato, os personagens são jovens, cheios de vida, acham que podem fazer tudo, já no
segundo ato eles estão mais maduros, vida está mais terrível, mais urgente”.

Deborah está animada com a estreia no Rio e a viagem para outras capitais, e completa: “Espero que a gente vá a Niterói”.

SERVIÇO:

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, fica na Praça Marechal Floriano S/no - Centro. O espetáculo fica em cartaz, dias 25, 26 e 27 às 21 horas; 28 às 17 e 21 horas e 29, às 17h. Informações: 2332- 9191 e 2332-9005.

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