sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O processo eleitoral 2010 analisado através da conquista do eleitorado nas mídias sociais. Recuperando votos da apatia política e transformando-os em militantes diretos e indiretos.


Trabalho apresentado como conclusão da disciplina Psicologia e Comunicação Social em 2010.2
Introdução
Este trabalho tem como objetivo analisar o processo eleitoral de 2010 na mídia através da perspectiva dos textos debatidos durante a aula de Psicologia e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. O recorte realizado busca compreender como a internet influenciou nessas eleições, a ela se credita grande parte dos votos conquistados pela candidata do partido verde Marina Silva, mas também foi palco de muitos embates entre os militantes dos candidatos, Dilma Rousseff do PT e José Serra do PSDB, embates esses baseados não em discussões políticas, mas em um depreciação da imagem um do outro.
O povo brasileiro tem uma postura apática em relação às eleições. Não é difícil encontrar quem não possui interesse em política, se tornando indiferente aos processos democráticos, o que da condição para compras de votos, escolha de candidatos por motivos aleatórios, inclusive os considerados de protesto ou mesmo nos votos brancos e nulos. “O que não tem remédio, remediado está”.

Dilma Rousseff foi eleita Presidente do Brasil no 2º turno, isso todos nós já sabemos. Porém uma das figuras mais influentes desse processo foi o passarinho azul símbolo da rede social Twitter. Sem a mobilização em torno de Marina Silva essas eleições teriam acabado no 1º turno. A onda verde fez com que a internet manifestasse a sua influência.
O twitter foi criado em 2006, em 2008 já surgia como uma rede social relevante pelos especialistas, mas só explodiu mundialmente no primeiro semestre de 2009 quando diversas celebridades criaram seus perfis e passaram a dividir suas vidas com quem os seguisse. No Brasil o boom do twitter aconteceu no fim do segundo semestre de 2009 assim como os investimentos massivos do Facebook, a maior rede social do mundo, no país. A maioria dos candidatos das eleições de 2010 possuía e muitos ainda mantêm contas nesses sites para divulgar suas agendas e opiniões sobre coisas da vida, pois o twitter é para isso, a interação direta com o público dessa vez não se trata apenas de conseguir mais seguidores, mas sim eleitores e militantes. E conseguem.
Quebrar as construções que deixam a população apática politicamente e conseguir não apenas mais um eleitor, mas um militante propagador de uma boa imagem desse candidato é um grande desafio. Até porque muitos não demonstram desejar esse tipo de militância baseada em debates democráticos, seu interesse é manter seus militantes atacando cegamente os outros candidatos, para que esses se sintam engajados politicamente, mas que no futuro não possuam base o suficiente para debates e cobranças. Distraídos na superfície não enxergamos que o mar é profundo e que suas correntes são velozes.
Desenvolvimento
São vários motivos que levam as pessoas a apatia política, mas a principal é acreditar que o seu voto não tem poder, que independente do que se faça na urna, o poder continuará nas mãos ruins de quem sempre esteve. A crueldade por trás desse pensamento é que por não acreditar que um voto faça diferença os projetos alternativos realmente não se viabilizam. As coisas se mantém como estão porque a visão impregnada nas mentes é justamente a que diz que qualquer esforço contrário é inútil. O objetivo final do emprego de técnicas de controle é chegar ao ponto que as pessoas se autocensurem, que modifiquem suas ações antes de agir. Por achar que não vão conseguir, não tentam. Quem detém o poder consegue o seu objetivo, se mantêm no poder sem ser incomodado.
São muitas as construções desse tipo que vemos nas eleições. Discursos fundamentados em modos de pensar nocivos a um bom desenvolvimento da sociedade, porém são os que mais se manifestam. E é interessante que essas visões de mundo se perpetuem em todas as camadas sociais e faixas etárias. “Eu votei de graça todos esses anos e não ganhei em nada com isso, minha vida continua ruim do mesmo jeito, nessas eleições pelo menos eu vou conseguir um trocado”, “Ahh, eu vou votar nesse candidato que as pesquisas dizem que vai ganhar para não jogar meu voto fora, esse outro até parece bom, mas não vai ganhar mesmo”, “Debate? Eu não vou perder meu tempo! São todos iguais, na hora eu vejo alguém para votar, se eu não justificar o voto”. Esse sentimento de “todo político é igual, e nenhum deles presta” cria um circulo vicioso que mantém o país da maneira que está. A indiferença das pessoas reitera tudo o que elas não suportam mais.
A internet tem um poder mobilizador muito grande, para o bem ou para o mal. Da mesma forma que muitos políticos de partidos menores criam sites para melhor divulgar suas ideias e propostas porque o horário eleitoral em rádio e televisão não os dá oportunidade, muitos se deixam levar e acabam fazendo campanha de um modo não adequado às demandas de cada ferramenta da internet e o que poderia trazer votos acaba por prejudicar meses de planejamento de campanha. Desde o começo da democracia, eleições são marcadas por golpes sujos, atitudes antiéticas que vão desde criar boatos sobre os adversários a comprar ou mesmo obrigar o voto do eleitor. E como reflexo da sociedade a internet foi palco de várias dessas práticas, de e-mails e mensagens virais com falsas informações sobre os outros candidatos a imagens e vídeos manipulados para denegrir ou fazer piada de sua imagem.
Porém, por mais inovadora que a internet se mostre é preciso lembrar que dos quase 193 milhões do total da população brasileira, segundo o IBGE em 2008 apenas 56 milhões, ou seja, 34,8% da população tinham acesso à internet. E desse número os maiores de 15 anos são apenas 37,5 milhões, o que ainda não reflete o número de eleitores porque o voto facultativo é só a partir dos 16 anos. E segundo pesquisa realizada pela empresa especializada comScore desses 37,5 milhões, 30 milhões possuem um perfil no Orkut, 8,8 milhões no Facebook e 8,6 milhões um no Twitter.
O que nos mostra, principalmente no caso da Marina Silva, que é possível influenciar as eleições, mas ainda é pouco para chegar no 2º turno. A onda verde, mobilização dos militantes da candidata do Partido Verde, foi um caso pioneiro em relação a eleições, internet e ativismo. Levar as eleições para o 2º turno deve ser encarado como uma vitória, mesmo que o candidato que foi para essa etapa não tenha sido a Marina.
O interessante desse tipo de campanha é justamente que o individuo entre em contato com as propostas pela internet e que queira divulgá-las por iniciativa própria, o que acha positivo passa adiante para os seus seguidores no Twitter ou amigos no Facebook. A campanha do atual Presidente norte americano Barack Obama teve esse espírito de mobilizar e criar uma militância muito importante só por repassar um e-mail ou dar um Re-tweet em uma declaração. Uma forma de militância indireta, esse internauta não vai a comitês, não cola adesivos e bandeiras, mas divulga ideias de um candidato e manifesta o seu apoio ao divulgar essa e não aquela informação para amigos e seguidores.
Mas não basta que o individuo tenha um perfil no twitter e um certo candidato também use essa rede social, é necessário o desejo do eleitor em entrar em contato com tal conteúdo, o que ainda não ocorre. De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa Nokia sobre o comportamento do brasileiro ao lidar com a tecnologia, 67% dos brasileiros disseram nunca visitar a página de políticos no Twitter ou no Facebook.
Em entrevista a Folha de São Paulo, Manuel Castells, sociólogo espanhol especialista em pesquisas sobre a web afirmou declarou:“ as mudanças fundamentais na sociedade são as que se produzem na mente das pessoas. É aí que surge a mudança: quando as pessoas mudam sua forma de pensar e, portanto, de atuar. (...) A renovação do sistema político exige que as pessoas queiram uma mudança (...). A internet serve para amplificar e articular os movimentos autônomos da sociedade. Ora, se essa sociedade não quer mudar, a internet servirá para que não mude.”
O individuo está tão acostumado a perseguir grandes números que não nota que a ação diferente da instituída também pode chegar a ter grandes porcentagens. No texto de Luis Antonio Batista, as cidades da falta o autor propõe que as pessoas estão cada vez mais se portando como passageiros cadavéricos ou anjos, observam tudo e para poder ver tanto o faz em alta velocidade, assim não é tocado por nada, não reflete sobre os acontecimentos e muito menos se comove com eles. O contato rápido é fugaz, mas quando dura mais tempo se torna enfadonho ou angustiante pelo sentimento de se estar perdendo tempo. Tudo se resume a velocidade, fragmentação e descartabilidade. Mas esse candidato vai ganhar de qualquer jeito mesmo, eu vou votar no outro por quê? “Nas cidades do capitalismo que (...) produz falta, preenche e depois esvazia (...) a cidade dos destinos que já chegam prontos”. (Batista, Luis. 1997 p.181)
Da mesma forma que a cada dia as pessoas ficam mais indiferentes umas as outras, concentradas em si mesmas, suas rotinas e demandas que são facilmente supridas pelo consumo, elas também se mostram indiferentes a política. Não é a toa que as profissões de assessoramento de candidatos crescem a cada eleição, como os marqueteiros políticos, que cuidam de todas as estratégias de propaganda da imagem do candidato desde as fotos nos banners ao layout do site desse candidato e os mídia training, jornalistas que orientam como o candidato pode usar os veículos da imprensa da melhor forma, desde a melhor hora para marcar uma coletiva para ter a cobertura dos principais veículos até em como responder as perguntas dos jornalistas sem se deixar apanhar pelas estratégias destes. O candidato se torna um produto a ser vendido, porém se o eleitor/consumidor se sentir lesado, não vai ser ao PROCON que ele irá se queixar e só poderá trocar a mercadoria depois de 4 anos ( ou 8 se for um Senador).
Reflexão virou sinônimo de perda de tempo e as pessoas não percebem que é desejo dos detentores do poder que as estruturas não se modifiquem. Deleuze ao expor os padrões da Sociedade do Controle, a caracteriza “como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro”, algo que estivesse sempre presente, mas sem restringir o movimento das pessoas, se o controle é dado em espaços abertos as pessoas não percebem que estão em uma forma de prisão. Distraídos em nossas gaiolas sem grades não percebemos as cordas que estão em nossas pernas e braços. Agora existe a modalidade do voto em trânsito, uma vez em uma capital durante as eleições você não precisa mais justificar o seu voto, pode votar normalmente, exercer o seu poder democrático. Mas para quê ver o debate, os candidatos são todos iguais mesmo.
Conclusão
Podemos dizer sobre o papel da internet nas eleições de 2010 que foi um caso de minoria ativista contra uma maioria silenciosa. Um importante passo foi dado, mas ainda há um grande trecho de estrada a percorrer. E não basta ampliar o acesso a internet, é preciso que aja interesse, e nesse caso de ambas as partes, eleitores e candidatos.
A eleição de 2010 foi a primeira que contou com o twitter como ferramenta e já conseguiu impedir que a campanha presidencial terminasse no primeiro turno, e isso contando que apenas 34,8% da população têm acesso a internet. Nas eleições para governador e prefeitos e vereadores em 2012 o panorama será muito maior e influente.
Enquanto Dilma Rousseff e José Serra trocavam farpas e seus militantes ampliavam esses aspectos negativos, Marina Silva divulgou suas propostas e assim trouxe uma multidão de quem antes se mostrava apático para o seu lado. Sem dúvida foi Marina a melhor usar a internet nesse pleito, lembrando que o tempo dela era muito pequeno nas rádios e televisões. Marina tirou muitos da apatia e conquistou os jovens antes que se, uma militância silenciosa que espalhou as ideias sustentáveis pelo Brasil através da internet.
A internet é em si democrática, todos tem voz. O receptor pode ser um emissor, e geralmente o é. Políticos, seus partidos e militantes tratando de igual para igual com o usuário comum, sucessos e bobagens produtos da novidade de um meio que diferente de todos os outros, possui um feedback quase instantâneo e massivo.
O capitalismo quer que continuemos acreditando na figura do herói solitário e que a massa quando não é burra é irracional e gera a desordem e o caos. Propagar o medo e a desconfiança entre as pessoas e valorizar figuras individualizadas previne que esses percebam as estruturas por trás do quotidiano e se unam. Se muitos votam diferente daquilo que acreditam ou desejam porque acreditam que não farão diferença, os que acreditam e insistem ainda não estão conseguindo resultados concretos. E enquanto isso o cidadão do capitalismo encontra soluções individuais para problemas da sociedade, se falta qualidade em escolas e hospitais públicos, trabalha mais para entrar nas modulações flutuantes característica da Sociedade do Controle e consegue os bônus e promoções para pagar por serviços particulares.
Distraídos, perderemos.

Referências Bibliográficas:

BAPTISTA, Luis Antonio dos Santos. As cidades da falta. Subjetividade Questões Contemporâneas. HUCITEC, São Paulo, 1997.
DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre as sociedades de Controle. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p. 219-226.
FOLHA DE SÃO PAULO. São Paulo: editora, nº 29.756, set. 2010.

Referências Digitais:

BAND.COM.BR. tecnologia Brasil tem 23% de seus internautas dentro do Twitter. Disponível em: <http://www.band.com.br/jornalismo/tecnologia/ conteudo.asp?ID=100000359832> Acessado em: 19 de novembro de 2010.
CONSONI, Gilberto. Qual é o saldo das campanhas presidenciais de 2010 nas mídias sociais da web? Em Dossiê Alex Primo. Disponível em: <http://www.interney.net/blogs/alexprimo/2010/10/29/qual_e_o_saldo_das_campanhas_presidencia/> Acessado em: 20 de novembro de 2010.
EGG, André. Ativismo político na internet – eleições 2010. Disponível em: <http://andreegg.opsblog.org/2010/06/12/ativismo-politico-na-internet-eleicoes-2010/ >Acessado em: 21 de novembro de 2010.
ESTADÃO.COM.BR. Política. Militância domina internet para repercutir encontro. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,militancia-domina-internet-para-repercutir-encontro,617976,0.htm> Acessado em: 20 de novembro de 2010.
IDG NOW! Acesso à internet no Brasil cresce 75,3% em três anos, afirma IBGE. Disponível em: <http://idgnow.uol.com.br/internet/2009/12/11/acesso-a-internet-no-brasil-cresce-75-3-em-tres-anos-afirma-ibge/> Acessado em: 20 de novembro de 2010.
ÚLTIMO SEGUNDO. Portal IG. Eleições. Marina bate Dilma nas redes sociais Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/marina+bate +dilma+nas+redes+sociais/n1237790137988.html> Acessado em: 20 de novembro de 2010.
WEB CONTEXTO. Internet. Pesquisa da Nokia mostra como lidamos com celular, internet e redes sociais. Disponível em: < http://webcomtexto.com.br/blog/tag/internet/ >Acessado em: 21 de novembro de 2010.

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