Trabalho apresentado como conclusão da disciplina Psicologia e Comunicação Social em 2010.2
Introdução
Este trabalho tem como objetivo analisar o processo eleitoral de 2010
na mídia através da perspectiva dos textos debatidos durante a aula
de Psicologia e Comunicação Social da Universidade Federal
Fluminense. O recorte realizado busca compreender como a internet
influenciou nessas eleições, a ela se credita grande parte dos
votos conquistados pela candidata do partido verde Marina Silva, mas
também foi palco de muitos embates entre os militantes dos
candidatos, Dilma Rousseff do PT e José Serra do PSDB, embates esses
baseados não em discussões políticas, mas em um depreciação da
imagem um do outro.
O povo brasileiro tem uma postura apática em relação às eleições.
Não é difícil encontrar quem não possui interesse em
política, se tornando indiferente aos processos democráticos, o que
da condição para compras de votos, escolha de candidatos por
motivos aleatórios, inclusive os considerados de protesto ou mesmo
nos votos brancos e nulos. “O que não tem remédio, remediado
está”.
Dilma Rousseff foi eleita Presidente do Brasil no 2º turno, isso
todos nós já sabemos. Porém uma das figuras mais influentes desse
processo foi o passarinho azul símbolo da rede social Twitter. Sem a
mobilização em torno de Marina Silva essas eleições teriam
acabado no 1º turno. A onda verde fez com que a internet
manifestasse a sua influência.
O twitter foi criado em 2006, em 2008 já surgia como uma rede social
relevante pelos especialistas, mas só explodiu mundialmente no
primeiro semestre de 2009 quando diversas celebridades criaram seus
perfis e passaram a dividir suas vidas com quem os seguisse. No
Brasil o boom do twitter aconteceu no fim do segundo semestre de 2009
assim como os investimentos massivos do Facebook, a maior rede social
do mundo, no país. A maioria dos candidatos das eleições de 2010
possuía e muitos ainda mantêm contas nesses sites para divulgar
suas agendas e opiniões sobre coisas da vida, pois o twitter é para
isso, a interação direta com o público dessa vez não se trata
apenas de conseguir mais seguidores, mas sim eleitores e militantes.
E conseguem.
Quebrar as construções que deixam a população apática
politicamente e conseguir não apenas mais um eleitor, mas um
militante propagador de uma boa imagem desse candidato é um grande
desafio. Até porque muitos não demonstram desejar esse tipo de
militância baseada em debates democráticos, seu interesse é manter
seus militantes atacando cegamente os outros candidatos, para que
esses se sintam engajados politicamente, mas que no futuro não
possuam base o suficiente para debates e cobranças. Distraídos na
superfície não enxergamos que o mar é profundo e que suas
correntes são velozes.
Desenvolvimento
São vários motivos que levam as pessoas a apatia política, mas a
principal é acreditar que o seu voto não tem poder, que
independente do que se faça na urna, o poder continuará nas mãos
ruins de quem sempre esteve. A crueldade por trás desse pensamento é
que por não acreditar que um voto faça diferença os projetos
alternativos realmente não se viabilizam. As coisas se mantém como
estão porque a visão impregnada nas mentes é justamente a que diz
que qualquer esforço contrário é inútil. O objetivo final do
emprego de técnicas de controle é chegar ao ponto que as pessoas se
autocensurem, que modifiquem suas ações antes de agir. Por achar
que não vão conseguir, não tentam. Quem detém o poder consegue o
seu objetivo, se mantêm no poder sem ser incomodado.
São muitas as construções desse tipo que vemos nas eleições.
Discursos fundamentados em modos de pensar nocivos a um bom
desenvolvimento da sociedade, porém são os que mais se manifestam.
E é interessante que essas visões de mundo se perpetuem em todas as
camadas sociais e faixas etárias. “Eu votei de graça todos esses
anos e não ganhei em nada com isso, minha vida continua ruim do
mesmo jeito, nessas eleições pelo menos eu vou conseguir um
trocado”, “Ahh, eu vou votar nesse candidato que as pesquisas
dizem que vai ganhar para não jogar meu voto fora, esse outro até
parece bom, mas não vai ganhar mesmo”, “Debate? Eu não vou
perder meu tempo! São todos iguais, na hora eu vejo alguém para
votar, se eu não justificar o voto”. Esse sentimento de “todo
político é igual, e nenhum deles presta” cria um circulo vicioso
que mantém o país da maneira que está. A indiferença das pessoas
reitera tudo o que elas não suportam mais.
A internet tem um poder mobilizador muito grande, para o bem ou para
o mal. Da mesma forma que muitos políticos de partidos menores criam
sites para melhor divulgar suas ideias e propostas porque o horário
eleitoral em rádio e televisão não os dá oportunidade, muitos se
deixam levar e acabam fazendo campanha de um modo não adequado às
demandas de cada ferramenta da internet e o que poderia trazer votos
acaba por prejudicar meses de planejamento de campanha. Desde o
começo da democracia, eleições são marcadas por golpes sujos,
atitudes antiéticas que vão desde criar boatos sobre os adversários
a comprar ou mesmo obrigar o voto do eleitor. E como reflexo da
sociedade a internet foi palco de várias dessas práticas, de
e-mails e mensagens virais com falsas informações sobre os outros
candidatos a imagens e vídeos manipulados para denegrir ou fazer
piada de sua imagem.
Porém, por mais inovadora que a internet se mostre é preciso
lembrar que dos quase 193 milhões do total da população
brasileira, segundo o IBGE em 2008 apenas 56 milhões, ou seja, 34,8%
da população tinham acesso à internet. E desse número os maiores
de 15 anos são apenas 37,5 milhões, o que ainda não reflete o
número de eleitores porque o voto facultativo é só a partir dos 16
anos. E segundo pesquisa realizada pela empresa especializada
comScore desses 37,5 milhões, 30 milhões possuem um perfil no
Orkut, 8,8 milhões no Facebook e 8,6 milhões um no Twitter.
O que nos mostra, principalmente no caso da Marina Silva, que é
possível influenciar as eleições, mas ainda é pouco para chegar
no 2º turno. A onda verde, mobilização dos militantes da candidata
do Partido Verde, foi um caso pioneiro em relação a eleições,
internet e ativismo. Levar as eleições para o 2º turno deve ser
encarado como uma vitória, mesmo que o candidato que foi para essa
etapa não tenha sido a Marina.
O interessante desse tipo de campanha é justamente que o individuo
entre em contato com as propostas pela internet e que queira
divulgá-las por iniciativa própria, o que acha positivo passa
adiante para os seus seguidores no Twitter ou amigos no Facebook. A
campanha do atual Presidente norte americano Barack Obama teve esse
espírito de mobilizar e criar uma militância muito importante só
por repassar um e-mail ou dar um Re-tweet em uma declaração. Uma
forma de militância indireta, esse internauta não vai a comitês,
não cola adesivos e bandeiras, mas divulga ideias de um candidato e
manifesta o seu apoio ao divulgar essa e não aquela informação
para amigos e seguidores.
Mas não basta que o individuo tenha um perfil no twitter e um certo
candidato também use essa rede social, é necessário o desejo do
eleitor em entrar em contato com tal conteúdo, o que ainda não
ocorre. De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa Nokia sobre
o comportamento do brasileiro ao lidar com a tecnologia, 67% dos
brasileiros disseram nunca visitar a página de políticos no Twitter
ou no Facebook.
Em entrevista a Folha de São Paulo, Manuel Castells, sociólogo
espanhol especialista em pesquisas sobre a web afirmou declarou:“
as mudanças fundamentais na sociedade são as que se produzem na
mente das pessoas. É aí que surge a mudança: quando as pessoas
mudam sua forma de pensar e, portanto, de atuar. (...) A renovação
do sistema político exige que as pessoas queiram uma mudança (...).
A internet serve para amplificar e articular os movimentos autônomos
da sociedade. Ora, se essa sociedade não quer mudar, a internet
servirá para que não mude.”
O individuo está tão acostumado a perseguir grandes números que
não nota que a ação diferente da instituída também pode chegar a
ter grandes porcentagens. No texto de Luis Antonio Batista, as
cidades da falta o autor propõe que as pessoas estão cada vez
mais se portando como passageiros cadavéricos ou anjos, observam
tudo e para poder ver tanto o faz em alta velocidade, assim não é
tocado por nada, não reflete sobre os acontecimentos e muito menos
se comove com eles. O contato rápido é fugaz, mas quando dura mais
tempo se torna enfadonho ou angustiante pelo sentimento de se estar
perdendo tempo. Tudo se resume a velocidade, fragmentação e
descartabilidade. Mas esse candidato vai ganhar de qualquer jeito
mesmo, eu vou votar no outro por quê? “Nas cidades do capitalismo que
(...) produz falta, preenche e depois esvazia (...) a cidade dos
destinos que já chegam prontos”. (Batista, Luis. 1997 p.181)
Da mesma forma que a cada dia as pessoas ficam mais indiferentes umas
as outras, concentradas em si mesmas, suas rotinas e demandas que são
facilmente supridas pelo consumo, elas também se mostram
indiferentes a política. Não é a toa que as profissões de
assessoramento de candidatos crescem a cada eleição, como os
marqueteiros políticos, que cuidam de todas as estratégias de
propaganda da imagem do candidato desde as fotos nos banners ao
layout do site desse candidato e os mídia training, jornalistas que
orientam como o candidato pode usar os veículos da imprensa da
melhor forma, desde a melhor hora para marcar uma coletiva para ter a
cobertura dos principais veículos até em como responder as
perguntas dos jornalistas sem se deixar apanhar pelas estratégias
destes. O candidato se torna um produto a ser vendido, porém se o
eleitor/consumidor se sentir lesado, não vai ser ao PROCON que ele
irá se queixar e só poderá trocar a mercadoria depois de 4 anos (
ou 8 se for um Senador).
Reflexão virou sinônimo de perda de tempo e as pessoas não
percebem que é desejo dos detentores do poder que as estruturas não
se modifiquem. Deleuze ao expor os padrões da Sociedade do Controle,
a caracteriza “como uma moldagem auto-deformante que mudasse
continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas
mudassem de um ponto a outro”, algo que estivesse sempre presente,
mas sem restringir o movimento das pessoas, se o controle é dado em
espaços abertos as pessoas não percebem que estão em uma forma de
prisão. Distraídos em nossas gaiolas sem grades não percebemos as
cordas que estão em nossas pernas e braços. Agora existe a
modalidade do voto em trânsito, uma vez em uma capital durante as
eleições você não precisa mais justificar o seu voto, pode votar
normalmente, exercer o seu poder democrático. Mas para quê ver o
debate, os candidatos são todos iguais mesmo.
Conclusão
Podemos dizer sobre o papel da internet nas eleições de 2010 que
foi um caso de minoria ativista contra uma maioria silenciosa. Um
importante passo foi dado, mas ainda há um grande trecho de estrada
a percorrer. E não basta ampliar o acesso a internet, é preciso que
aja interesse, e nesse caso de ambas as partes, eleitores e
candidatos.
A eleição de 2010 foi a primeira que contou com o twitter como
ferramenta e já conseguiu impedir que a campanha presidencial
terminasse no primeiro turno, e isso contando que apenas 34,8% da
população têm acesso a internet. Nas eleições para governador e
prefeitos e vereadores em 2012 o panorama será muito maior e
influente.
Enquanto Dilma Rousseff e José Serra trocavam farpas e seus
militantes ampliavam esses aspectos negativos, Marina Silva divulgou
suas propostas e assim trouxe uma multidão de quem antes se mostrava
apático para o seu lado. Sem dúvida foi Marina a melhor usar a
internet nesse pleito, lembrando que o tempo dela era muito pequeno
nas rádios e televisões. Marina tirou muitos da apatia e conquistou
os jovens antes que se, uma militância silenciosa que espalhou as
ideias sustentáveis pelo Brasil através da internet.
A internet é em si democrática, todos tem voz. O receptor pode ser
um emissor, e geralmente o é. Políticos, seus partidos e militantes
tratando de igual para igual com o usuário comum, sucessos e
bobagens produtos da novidade de um meio que diferente de todos os
outros, possui um feedback quase instantâneo e massivo.
O capitalismo quer que continuemos acreditando na figura do herói
solitário e que a massa quando não é burra é irracional e gera a
desordem e o caos. Propagar o medo e a desconfiança entre as pessoas
e valorizar figuras individualizadas previne que esses percebam as
estruturas por trás do quotidiano e se unam. Se muitos votam
diferente daquilo que acreditam ou desejam porque acreditam que não
farão diferença, os que acreditam e insistem ainda não estão
conseguindo resultados concretos. E enquanto isso o cidadão do
capitalismo encontra soluções individuais para problemas da
sociedade, se falta qualidade em escolas e hospitais públicos,
trabalha mais para entrar nas modulações flutuantes característica
da Sociedade do Controle e consegue os bônus e promoções para
pagar por serviços particulares.
Distraídos, perderemos.
Referências Bibliográficas:
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Subjetividade Questões Contemporâneas. HUCITEC, São Paulo, 1997.
DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre as sociedades de Controle.
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Disponível em:
<http://www.interney.net/blogs/alexprimo/2010/10/29/qual_e_o_saldo_das_campanhas_presidencia/>
Acessado em: 20 de novembro de 2010.
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Disponível em:
<http://andreegg.opsblog.org/2010/06/12/ativismo-politico-na-internet-eleicoes-2010/
>Acessado em: 21 de novembro de 2010.
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<http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,militancia-domina-internet-para-repercutir-encontro,617976,0.htm>
Acessado em: 20 de novembro de 2010.
IDG NOW! Acesso à internet no Brasil
cresce 75,3% em três anos, afirma IBGE. Disponível em:
<http://idgnow.uol.com.br/internet/2009/12/11/acesso-a-internet-no-brasil-cresce-75-3-em-tres-anos-afirma-ibge/>
Acessado em: 20 de novembro de 2010.
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<http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/marina+bate
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WEB CONTEXTO. Internet. Pesquisa
da Nokia mostra como lidamos com celular, internet e redes sociais.
Disponível em: <
http://webcomtexto.com.br/blog/tag/internet/ >Acessado em: 21
de novembro de 2010.
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