
Ao assistir o documentário War Photographer sobre o fotografo de guerra James Nachtwey e seus mais de 20 anos de carreira nesse árduo ramo da fotografia, primeiro me choquei com a naturalidade com que os editores da revista Stern, revista semanal alemã de variedades, lidavam com o que viam em suas fotos, não só naturalidade, mas também empolgação. Só depois me intriguei com o James Nachtwey, e como sua postura pareceu distante e fria, quando em um dos primeiros momentos do vídeo ele fotografava um velório em que a mãe do morto chorava copiosamente de muito perto e de muitos ângulos – pensei que se aquela mesma mulher estivesse numa praia e ele estivesse fazendo uma editoria de moda a fotografaria com a mesma postura, e isso me desagradou muito. Mas se documentarista desejava criar essa imagem, a desfez com maestria.
E por ver demais, o fotografo cria a sua “biblioteca pessoal de sofrimento”, o que ele fotografa não é um décimo do que ele vê e como ele escolhe lidar com esses sentimentos o muda para sempre. Podem ser diferentes os fatores que deram inicio ao conflito, o país e a etnia dos envolvidos, mas são tragédias e misérias absolutas e totalmente desnecessárias não importa o que os levaram até esse ponto. E são essas imagens que irão compor o que as próximas gerações saberão e pensarão sobre essas guerras.
Esse documentário mostra como a fotografia de guerra deve ser um ato de fé. Depois da cobertura de uma guerra o fotografo tem três opções: não voltar nunca mais para esse tipo de trabalho, se manter distanciado emocionalmente dos conflitos e seus personagens agindo como um verdadeiro abutre tomando como filosofia de vida “Quanto mais trágico, mais vai ser publicado” e ir atrás disso, ou ter uma postura pessoal otimista e acreditar que seu trabalho emociona e conscientiza os que o vêem e que fará as decisões certas serem tomadas e diminuir os conflitos algum dia. James Nachtwey é um desses raros otimistas. Sua postura serena ao fotografar tantas imagens chocantes se deve ao seu grande autocontrole que funciona canalizando suas emoções nas fotografias.
Ao assistir o vídeo você se identifica, quer vestir a camisa do fotografo que antes que de ser ético, é humano, que acredita em levar a verdade nua, crua e cruel para o publico se comover e quem sabe se mobilizar em prol de uma causa. Mas vem aí um grande balde de água fria, o espaço para essa cobertura diminui cada vez mais, não sei se é isso que me espanta ou se é o fato de eu me espantar com isso é que é estranho. A vida das celebridades, seus escândalos e os diamantes que usam tem mais visibilidade do que as terríveis condições de vida dos africanos que garimpam esses mesmos diamantes.
Não é a microcâmara em cima da câmera fotográfica de James Nachtwey que nos transporta para a intensidade do seu mundo, nem mesmo as suas fotos, são suas declarações. Como esse homem que viu tanta injustiça e sofrimento de tantos seres humanos ainda acredita que pode fazer a diferença no mundo, que suas fotos são protestos que podem fazer com que outros também protestem. Estamos nos tornando tão cínicos quanto os fotógrafos que não sentem remorso em lucrar com o sofrimento alheio, aceitamos o mundo do jeito que ele é facilmente e assim cada dia mais nos importa menos.
Trabalho apresentado em 2010.1 na disciplina Introdução ao Fotojornalismo.
Trabalho apresentado em 2010.1 na disciplina Introdução ao Fotojornalismo.
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